E Gru, o Malvado Favorito, Roubou a Lua


Foi com Eurico, ainda nos anos 80, que aprendi que o Vasco é bem maior do que supõem os seus neo-torcedores. Eu era, então, um jovem torcedor de arquibancada, frequentador de jogos inacreditáveis, nem sonhava em militar na política do clube.

Na segunda metade daquela década e ao longo dos anos 90, o Vasco esteve à frente dos seus concorrentes em todos os aspectos. Mesmo nos anos 2000, a fundação do Colégio Vasco da Gama em meio ao cenário de guerra que se iniciava, mostrou como se pensava adiante. A ingratidão não permite enxergar e cria subterfúgios banais para negar o óbvio: Eurico foi o mentor daqueles tempos. Joguem as pedras que quiserem, acreditem no que for, nada desmentirá esta evidência.

Este período fez de Eurico o maior dirigente da História do Vasco. Doa a quem doer. O que veio depois, no campo interno, foi consequência do ódio, da inveja, da mesquinharia, da tacanhez de muitos que o detestaram por incapazes e covardes que foram e são. O rosto da política do clube.

Externamente, recebeu a vingança pelas cotoveladas que precisou proferir para contrapor o sistema e transformar o Vasco em algo maior do que sua torcida acredita. Roubar a lua teve seu preço.

Digo isso porque, provavelmente, Eurico se despede sob as cusparadas da ingratidão. Nada, porém, mais esperado. É que quando alguém dedica a sua vida a uma causa, deixando a própria vida de lado, enfrenta, combate, luta. Enfrentar, combater e lutar pelo Vasco sangrou Eurico. Mas que aqueles que pensam que foi em vão continuem sem dormir.

Vive-se uma era de profunda ignorância, fomentada pela facilidade para a emissão de opiniões idiotas e julgamentos sumários. Logo, a falta de reconhecimento será destaque neste momento. 

Arrisco dizer, então, que cuspes, pedras, ofensas passaram a ser troféus. Aprendi que toda vez que um imbecil expele uma barbaridade, o mundo melhora. E melhora porque o único remédio para a imbecilidade é a auto-declaração do imbecil. Quando o idiota se acusa com atos, palavras, opiniões e julgamentos, o universo põe de lado uma célula de tosquidão. É verdade: mais dia, menos dia, o imbecil fica à margem porque nem ele mesmo se aguenta. O ostracismo é o seu destino.

Apesar dos imbecis, que fatalmente ficarão pelo caminho, e parafraseando algo já dito em tempos idos, Eurico deixa a vida para entrar na História do Vasco como dirigente mais notável dos seus 120 anos. 

Numa das últimas vezes que estive com ele, já sob efeito de dias depressivos, ele tentou se despedir. E tive oportunidade de dizer a ele a respeito de uma lição que aprendi. Eu vou me despedir. Você que me lê provavelmente também vai. Mas há quem jamais se despeça. Porque simplesmente fica imortalizado por uma causa, uma luta ou pelo trabalho dedicado a uma Instituição como a que amamos. 

Por ter feito a minha própria história de vida mais divertida, por ter ajudado decisivamente a oferecer várias das minhas maiores alegrias, por ter me permitido conviver durante um tempo com as suas várias qualidades e defeitos, por ter às vezes escutado e às vezes ignorado as críticas que lhe fiz, por ter sido Gru, o Meu Malvado Favorito, apresento a minha profunda gratidão, reconhecimento e o compromisso de que, enquanto eu estiver por aqui, seu nome será lembrado como o de alguém que dignificou o Vasco no maior grau possível. 

Apresento, também, as condolências à sua família, sacrificada por esta inexplicável e implacável paixão chamada Vasco.

Obrigado, Eurico. Siga em paz. O Vasco não será o mesmo sem você, mas foi você quem mostrou onde o clube deve estar. E é lá que o queremos manter. 

Certa vez, em um local menos mal cheiroso do que aqueles nos quais se discute política do Vasco, ele me disse: “você é o único radical que eu conheço que não é de esquerda e nem de direita”.

Talvez ele tivesse razão.

Radical pelo Vasco.

4 thoughts on “E Gru, o Malvado Favorito, Roubou a Lua

  • 12 de March de 2019 at 14:01
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    Eurico, muito obrigado.

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  • 12 de March de 2019 at 14:06
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    Grandes homens não morrem, viram lendas.
    Obrigado meu presidente, adeus…

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  • 12 de March de 2019 at 14:06
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    Minhas preces , homenagens e gratiďão por tudo , meus sentimentos aos familiares e amigos. Obrigado , Eurico, Casaca , de pé.

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  • 12 de March de 2019 at 18:04
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    Irretocável.
    Perfeita e belíssima homenagem.

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