Abismo

Logo depois de assumir, após uma eleição mambembe em 2008, a República das Bananeiras iniciou o processo que hoje está em curso. Ajudou a liquidar com o Clube dos 13, grupo em que o Vasco detinha, então, a vice-presidência e negociava contratos de TV coletivos. A dissolução abriu as portas para um antigo desejo da emissora que manda em quase tudo: negociações individuais.

Em 2011, durante a renovação dos contratos, agora de forma isolada, o trio Dinamite-Mandarino-Nelson Rocha, apoiado por outros sábios do mercado, achou sensacional receber 60 milhões da TV, esquecendo-se de verificar quanto os outros receberiam. Começava ali a rachadura de um abismo que se expande em proporções exponenciais desde então.

Enquanto a distância aumentava, a República das Bananeiras, não satisfeita com a pintura do quadro já em andamento, entregou o clube em 2014 com 2 rebaixamentos e dívida dramaticamente superior. O que os patrícios levaram 110 anos para dever, perto de 200 milhões, Dinamite conseguiu elevar em 6 primaveras para 700 milhões.

O ciclo, que é vicioso para nós e virtuoso para quem a TV escolheu, funciona assim, o que já se tentou explicar por aqui há muito: quem recebe mais, tem exposição mais positiva na mídia. Com maior exposição, os contratos de parceria, patrocínio, incentivo ou seja lá o que for, são melhores. Há, então, a possibilidade de montagem de elencos mais qualificados. Mesmo sem vencer, há classificação para competições de ponta, com excelentes premiações por etapa vencida. Competições de ponta chamam mais público e multiplicam por 10 receitas de bilheteria e sócio-torcedor. Não à toa, orçamentos de clubes que se equiparavam há dez anos, hoje possuem uma disparidade assustadora.

Os parágrafos anteriores expõem algo dramático, que foi plenamente sentido em campo de jogo, talvez pela primeira vez e com muita clareza, no domingo passado. Ao se olhar a vitória tranquila do Flamengo sobre  Vasco, tende-se a dizer que os atletas do Vasco não correram, o treinador não soube escalar o time, o dirigente permitiu um elenco desunido. Tudo isso pode até ser verdade. Mas, também, e principalmente, tudo isso é reflexo direto e incontestável do abismo que está estabelecido.

Parêntese: o Vasco pode vencer o Flamengo por um placar interessante. Pode se classificar diante do Santos. Mas será fortuito frente ao cenário real que se observa quando se olha para o todo.

Feito este diagnóstico, enxergo uma única solução: o estabelecimento de uma agenda mínima entre os grupos políticos relevantes do Vasco. A agenda mínima que vislumbro é o afastamento de judicializações por tudo, é a reforma estatutária não só adaptativa, mas modernizadora, é a superação do oceano de vaidades que domina o clube em nome de filigranas, pequenezas, babaquices, viadagens, entre outros quitutes de menor importância.

Podem me apontar dedos: “quem é você para falar isso, visto que esteve ao lado, por quase 20 anos, do cara mais odiado do Vasco e do futebol brasileiro?”. Pois é isto, justamente, que me permite defender a tese. Não me arrependo e nunca vou me arrepender de ter estado ao lado de Eurico. No Vasco, por filosofia. Depois, fora dele, por amizade. Sei o que me custou pessoalmente: ações criminais, cíveis, inimizdes, distanciamento social, muito mais ódio do que acolhimentos. Sei o que custou a ele. E soubemos, desde que a igualdade de terrenos se transformou em ladeira abaixo para o Vasco e acima para outros, onde isso nos levaria.

Dito isso, contem comigo e o grupo que integro para celebrar conversas sobre agendas mínimas. E me descartem (e, por hora, falo apenas pessoalmente) para novos capítulos, novelas, seriados ou filmes de ódio, disputas inúteis e guerrinhas que não têm o Vasco como prioridade, mas algo menor, bem menor, que fica subentendido.

Não há aqui nenhuma utopia. Não estou falando de uma união que impeça a existência de oposição. A oposição é sadia, sempre existirá. Desde que a disputa política não seja mais na forma dos últimos 30 anos, o que tem contribuído decisivamente para o tal abismo que hoje está estabelecido e em movimento contrário do que desejamos em relação aos outros clubes.

Lavadas as minhas mãos a respeito de que eu tome partidos como aqueles que tomei a favor de Eurico, informo, por fim, que me caberá, apenas, denunciar aqueles que pensam menor, bem menor, do que o Vasco merece. E isso acontecerá a cada passo que se dê no rumo inevitável que estamos tomando: o rumo da extinção da Instituição com a mais bela História esportiva do mundo.

Abraço

João Carlos Nóbrega

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