À SOMBRA DOS CHARUTOS IMORTAIS

Antes da chuva chegar, os trovões se anunciavam no Cemitério São João Batista. Parecia cena de drama épico, alguma saga cinematográfica com suas cenas clássicas de matizes cinzentos e estátuas de anjos velando jazigos. Umas boas duas ou três centenas de pessoas se apinhavam em torno de um caixão. Coveiros, muitos vascaínos, repórteres e alguns familiares terminavam por compor o quadro da despedida.

Surge o primeiro Casaca! entoado e todas as gargantas presentes e jugulares saltadas urraram num misto de tristeza, lamento e homenagem, uma honraria àquele que partira naquela tarde carioca de março. Vieram mais dois Casacas! e o hino cruzmaltino cantado a plenos pulmões. Lágrimas se escondiam por detrás de óculos escuros, alguns discursos, muito silêncio e um respeito à altura do tributo à memória daquele homem. O ensurdecedor sossego só era intervalado pelos trovões taciturnos. Desceu o esquife e nós, vascaínos, fomos caminhando lentamente às ruas, às nossas vidas comuns do pão-com-manteiga diário, mesmo diante do temporal que se prenunciava. Em minutos, chuvarada aos borbotões. O funeral de Eurico Ângelo Miranda se encerrava após quase 24 horas de loas na Capela da Nossa Senhora das Vitórias em São Januário, o caminhar vagaroso em torno do gramado do estádio e o sepultamento. Descerrara-se a cortina de um ato tão sóbrio, emocionado mas controlado, altivo e vascainíssimo até não mais poder tal qual o homenageado.

E o que raios faz aqui o meu recordar desse dia que a retina teima em não apagar? Dirão os desavisados e rancorosos sem esperar explicação: “o Vasco venceu o Inter no Brasileirão depois de 7 eternas rodadas sem ganhar, finalmente, e você falando de Eurico?”. Alguns até lembrarão que ontem, 7 de junho, o ex-Presidente do clube faria 75 anos, um aniversário com um presente tão ao gosto do aniversariante ao fim do dia. Pois digo com a clarividência da simplicidade ululante que está tudo devidamente costurado. A morte, o que veio antes em todas as nuances de dores e incapacidades pessoais, os embates políticos fermentando a cada dia depois, um clube com feridas expostas em praça pública, um futebol com cicatrizes monumentais tentando se reerguer do colapso. E por aqui, o grupo de casaquistas, que apesar de algumas poucas dissidências e dissabores neste mesmo percurso temporal, seguimos a toada que vem nos iluminando há quase 20 anos: de defender a Instituição custe o que custar, seja numa posição política como situação ou oposição. Isto é, uma semana que começou numa segunda-feira que sinalizava dentro da Sede da Lagoa toda a dificuldade vivida hoje pelo clube, mas ao mesmo tempo acenava para a saída da sensatez, da serenidade de não se queimar navios a qualquer preço termina com vitória no dia do aniversário de Eurico Miranda e churrasco do Casaca! neste sábado. Metáfora maior de luz no fim do túnel não há.

Perdoem a estupidez, inocência ou romantismo do escriba aqui (como me chamava o “ledor” – mais que leitor segundo ele – Eurico Miranda nas reuniões em sua sala com as indefectíveis baforadas em seus charutos imortais), mas por que não sorrir com a boa semana de vitórias mesmo que magras, pouco brilhantes ou apenas obrigatórias? Urge vermos nossas potencialidades cruzmaltinas. Lamber nossas feridas sim, não as negar, mas ultrapassá-las. Tempos atrás falar em união, pacificação e costurar diálogos entre diferentes dentro do clube era quase um acinte, quem escrevesse sobre ou ecoasse um ‘a’ que fosse já era taxado como um idiota a cavalgar de quatro relinchando ou simplesmente um doce e infantil sonhador. Pois não só chegou a hora, como passamos dela.

O Grupo Casaca! segue repetindo o mesmo mantra do diálogo há tempos, de não ser Oposição “ao” Vasco, mas oposição crítica à atual diretoria. Neste ano, só como exemplos límpidos e cristalinos: ajudou na memorável retomada do lado direito das Tribunas no Maracanã na Decisão da Taça GB e votou não à sindicância contra o atual Presidente que engessaria a instituição de tal forma que, muito provavelmente, não nos daria caminho de volta. Em paralelo, o filho do aniversariante eterno de ontem deu o tom no seu preciso discurso no início da semana ao descrever a realidade doída como é e sabendo que para sairmos das ruínas é preciso primeiro não negá-las, não apresentar soluções de mais implosões, mas sim conversar com todas correntes políticas do clube, aparar arestas, conciliar e fazer a Nau do Almirante seguir seu curso natural das conquistas – bússola deixada pelo saudoso Eurico Ângelo de Oliveira Miranda.

Que o Campeonato Brasileiro e o futebol do Club de Regatas Vasco da Gama sigam a via do alívio para todos nós apesar de tantas decepções, crises e fragmentações internas. Que o trabalho árduo (re)nasça como vimos nos brios de cada jogador diante do Internacional de Porto Alegre. Pode ser pouco, mas já é algo diante do vazio até pouco tempo apresentado. Que isso valha não só para o gramado mas, sobretudo, para fora dele.

O Grupo CASACA! comemora seus quase 20 anos de existência de uma amizade que pouco se vê nas esquinas por aí – um diálogo de décadas entre diferentes, muito diferentes em termos profissionais, políticos ou nas questões mais prosaicas. Uma metáfora possível de como a Babel vascaína pode fazer coexistir comunicação. Unida a essa comemoração, a lembrança pungente do eterno Presidente Eurico Miranda e seu aniversário no dia 7 de junho.

***********

Um dia, há muitos anos atrás depois de parar com as crônicas semanais para o Casaca!, Eurico me chamou ao lado da mesa em que estava no Restaurante do Almirante e tascou de primeira no meu peito: “Tem que voltar a escrever, Rafael!”. Respondi “Falta inspiração, Eurico” (por alguma irreverência minha não o chamava de presidente e ele consentia). Ele sorriu com as indefectíveis batidinhas no peito do interlocutor, “A inspiração vai voltar, vai voltar”… Espero que se aninhe por essas bandas e não fuja mais, Presidente.

Rafael Fabro

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *