O Silêncio dos Inocentes

“Em tempos de engano universal, dizer a verdade será um ato revolucionário.” George Orwell – autor de 1984.

A audiência da Rede Globo de Televisão atingiu os maiores índices em uma década nestes tempos de confinamento. O canal fechado mais assistido nos últimos 30 dias é a Globonews.

No primeiro dia do mês de abril, o “mês do apocalipse”, a Rede Globo de Televisão levou ao ar uma matéria produzida com uma professora universitária. A senhora era enaltecida por praticar um ato não apenas solidário, mas moral. Ela seguia pagando regiamente os direitos de sua diarista, mesmo a tendo dispensado temporariamente em função dos riscos inerentes ao COVID-19. Sua funcionária possui comorbidades, mãe idosa.

Ponto fora da curva no noticiário frente a um comportamento editorial suspeito da emissora. Atiraram no que viram, acertaram no que não viram: a intenção era o mantra do “todo mundo em casa”. O pato abatido foi outro.

Na última sexta-feira, dia 3 do “mês do apocalipse”, a Rede Globo de Televisão emitiu um comunicado aos clubes do futebol do Rio de Janeiro por ela contratados. Segundo o seu portal esportivo, o GloboEsporte.com, “a Globo ressaltou que toda a cadeia produtiva do futebol precisa renegociar seus compromissos em razão da paralisação causada pela pandemia do novo coronavírus.” A manifestação foi feita após texto emitido pelos clubes requisitando à Globo o pagamento de uma das parcelas do estadual.

Parece haver contradição entre a moral da professora universitária e a da Rede Globo de Televisão. E há. Em tempos de totalitarismo informativo, com o respeitável público preso em sua casa e o Grande Irmão oferecendo as diretrizes, a máquina de propaganda pouco se incomoda se enaltece algo que se nega a praticar.

Este descaso é prolongado por outra evidência: ao passo em que informa que precisa “renegociar seus compromissos” pela interrupção do estadual, nega-se a considerar “toda a cadeia produtiva do futebol”. Principalmente seus assinantes.

Não apenas pelo que resta do torneio, mas pelo que já deixou de exibir e não exibirá mais, jogos faltantes na grade prometida antes do campeonato, era obrigação da Globo ressarcir seus assinantes. Mas parece que para a emissora, a “cadeia produtiva” despreza quem a ela paga. O que se evidencia na própria definição apresentada na nota emitida quando se refere à cadeia produtiva: “clubes, federações, empresas de mídia, anunciantes e patrocinadores, entre outros parceiros”. Assinantes fora.

Os clubes de futebol no Brasil precisam urgentemente de alternativas à Globo. Ao término do contrato corrente, devem estar organizados a fim de que consigam romper com a atual subserviência e tapas na cara. Ocorre que faltam líderes entre os dirigentes. Ou a alguns não interessa revolução. O Flamengo é um dos braços esportivos do totalitarismo envergonhado. Não se mexerá. Outros atores vivem imersos no imobilismo catatônico causado pelo transe das cobras dançantes que emanam dos cestos enquanto o Big Brother sopra a flauta.

No caso do Vasco, líder político nato dos clubes em outros tempos, vive-se o desamparo da visão política, inteligência e coragem. Espécie de segundo ato da República das Bananeiras. Não se pode esperar nada dali em termos de liderança, sobretudo enquanto qualquer ação for eivada por intenções eleitorais, seja a respeito de eleições que podem acontecer no Vasco este ano, seja em função do pleito municipal pelo qual bate o pé na Câmara dos Deputados o Botafogo da Odebrecht.

Assim sendo, é urgente que alguém com coragem suficiente para enfrentar uma máquina envergonhadamente totalitária se apresente como liderança e, de fato, lidere o futebol brasileiro nos próximos anos. Quem se habilita?

“Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”. 1984

João Carlos Nóbrega

Benemérito do CR Vasco da Gama

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