A Crise e o Vasco: agora e depois


O imobilismo verificado na ausência de medidas emergenciais por parte da diretoria do Vasco da Gama a respeito do grave panorama que atinge, e ainda atingirá por algum tempo, todas as atividades acende os alertas. Dificuldades antes restritas ganharam amplitude jamais vista. Neste cenário, apenas esperar a tempestade passar não parece o indicado.

Por acreditar que crise de proporções como esta pode ser oportunidade, não apenas lamúria, decidimos colocar ideias. Com base em evidências do que conhecemos, na proposta orçamentária do clube para 2020 e em realidades financeiras apresentadas ao Conselho Fiscal, não há espaço para omissões de nossa parte.

Algumas dariam trabalho para implementação, algumas exigem liderança, outras ferem velhos interesses, há ainda simples atos de gestão. Nenhuma passa pelo lugar comum de demissões sem resultado.

O Vasco precisa enfrentar tempestade e retomar suas atividades sob novas perspectivas. As perspectivas de que a Instituição não se trata de um meio para alguns, mas um fim de conquistas para todos.

  1. O momento é bastante propício para retomada de um movimento de liderança externa do Clube, mais amplo inclusive do que o próprio Clube dos 13

A pandemia e suas consequências, em especial a suspensão das competições desportivas e as incertezas que pairam a seu respeito, impõe a necessidade comum dos clubes buscarem alternativas para os impactos econômico-financeiros, atuais e futuros. Há muito já se evidenciou que a negociação individual beneficia alguns em detrimento do conjunto dos clubes e campeonatos. Daí porque nada mais natural do que retomar com força esse movimento coletivo para renegociação dos modelos de cotas televisionamento dos campeonatos e mesmo as questões atinentes das propriedades e marcas dos Clubes. A detentora dos direitos televisivos, por exemplo, suspendeu o pagamento da última parcela do campeonato estadual, sendo que nesta receita há envolvida a questão do paperview, cuja maioria da receita foi adiantada pelos assinantes. Dito de outro modo, como não há notícia de devolução aos assinantes, não se vê razão para a suspensão total da receita. Outra questão importante é a possibilidade de retomada gradativa das atividades e, quem sabe, retorno das competições. Os clubes devem estar à frente das propostas para saírem fortalecidos neste momento de dificuldade, que certamente será explorado pelo outro lado. 

Outras propostas neste sentido:

– Pleitear a redução de 50% em todas as taxas cobradas pelas federações e CBF, referentes a inscrição de atletas, realização de jogos, etc. até 2022.

– Suspensão da exigibilidade de créditos junto à FFERJ e à CBF até 2022, em função de empréstimos anteriormente captados.

– Propor o brasileiro com 40 clubes, os 20 da primeira e os 20 da segunda divisões. Serão formados 4 grupos de 10 clubes. Os 2 melhores se classificam para as quartas de final, em ida e volta, e assim sucessivamente. A fórmula abre 13 datas, o que permitiria o início da competição em agosto. Começar em agosto significará, possivelmente, presença de público e tempo para encerramento dos estaduais. Não há descenso. Os 4 primeiros dentre aqueles que disputariam em 2020 a segunda divisão, permanecem na primeira divisão em 2021. Volta-se aos pontos corridos com 24. Em 2021, caem 4, sobem 2. O mesmo em 2022. Em 2023 voltaríamos a ter 20 na primeira divisão.

– Fair Play financeiro. Até 2022, as folhas dos clubes em seus departamentos de futebol não podem superar 6 milhões de reais. A medida aumentará o equilíbrio esportivo entre os disputantes. Os efeitos da crise causada pela pandemia não devem ser intensificados pela desigualdade financeira. É preciso que clubes mais abalados pela crise tenham tempo de se recuperar disputando competições em condições menos desfavoráveis do que aqueles com maior receita e, portanto, robustez para enfrentar o momento.

– Suspensão de exigibilidade das dívidas junto à CBF e Federações até 2022. Os clubes, em sua maioria, possuem débitos junto à CBF e federações. Esses débitos são pagos em parcelas mediante dedução de valores de participação nos campeonatos, comprometendo, portanto, parcela relevante da receita. Sugere-se neste cenário a suspensão da dívida sem a incidência de juros com retomada do pagamento a partir de janeiro de 2022, abrindo espaço para que essas receitas sejam utilizadas no enfrentamento dos efeitos da crise.

– Reivindicar junto a CBF a criação de uma linha de crédito com condições facilitadas e início de pagamento em 2022, bem como que a FIFA flexibilize as regras de investimento em direitos econômicos de atletas para atrair recursos e investimentos, especialmente no que tange o Third Party Ownership (TPO) – veto à participação de terceiro nos direitos econômicos de atletas.

2. Renegociação das obrigações tributárias e parcelamentos fiscais e de novas medidas de socorro ao esporte – Adiantamento de recebíveis lotéricos.

A União Federal prorrogou em 90 dias os vencimentos dos tributos e parcelamentos federais vencidos em março e abril. A medida atenua, mas não resolve a problemática. Pelo que se desenha, será necessário socorro estatal ao esporte para que os tributos e parcelamentos vencidos no período de pandemia possam ser incluídos em um novo parcelamento sem a incidência de juros e multas, caso não seja possível (como parece ser o caso) o seu pagamento nas datas dos novos vencimentos. Da mesma forma, parece inevitável que um novo programa de parcelamento possa abarcar obrigações anteriores, cuja incidência de juros e multas deve ser respeitada, mas com os descontos especiais de parcelamento fiscal. Essa medida permitirá que os clubes regularizem suas situações fiscais e possam ter acesso à receitas estatais necessárias a fomento de atividades desportivas que serão ainda mais atingidas que o futebol, mas que também geram emprego e receita ao país. Além disso, o socorro governamental pode ser mais extenso do que a mera concessão de parcelamentos para equacionamento de débitos fiscais, surgindo daí a possibilidade de injeção de dinheiro em condições favoráveis para apoio à cadeia produtiva do futebol. Uma ideia a ser defendida seria a criação de um fundo setorial através do BNDES com condições favoráveis para pagamento mediante melhoria das contrapartidas de modernização da gestão e governança transparente e eficiência operacional, em evolução ao estabelecido na Lei nº: 13.155/2015 (PROFUT).

 Neste cenário, a sugestão do tópico anterior é deveras importante, pois com uma entidade que os represente coletivamente, os Clubes terão mais força no pleito e discussões junto às instituições competentes. Além disso, considerando que os clubes fazem jus à receita da Timemania, seria uma boa medida para o fluxo de caixa imediato a busca de um acordo para antecipação de recebíveis.

3. Medidas Internas: Renegociação de contratos e com credores – suspensão/levantamento de penhoras:

É necessária uma força tarefa para renegociação dos contratos com fornecedores e credores do Clube. Registre-se, aqui, que para isso não se faz necessário valer-se de consultorias, notadamente quando em tempos de redução de custos essa despesa, muito elevada na atual gestão, deve passar por um corte imediato, conforme a seguir abordar-se-á. Com a suspensão das atividades, e do pagamento daquela que é a sua maior fonte de receita, o Clube, que já não detinha uma boa saúde financeira, não terá condições de cumprir contratos e compromissos junto a fornecedores e credores. Daí a necessidade de renegociação com suspensão imediata de pagamento, reescalonamento das obrigações sem juros e multa e, em alguns muitos casos de fornecedores, até rescisão de seus contratos. Em relação aos credores, não podemos esquecer que alguns deles são sócios (ou diretores) do clube, sendo, portanto, natural uma maior complacência com a agremiação no sentido de suspender-se todos os pagamentos imediatamente para que, após a pandemia, haja uma renegociação de retomada e reescalonamento do ajuste, que evidentemente não deverá comportar juros e multa. Nesse processo de renegociação surge a possibilidade de conversa com credores que têm penhoras sobre as receitas do clube, de onde um bom termo pode derivar até mesmo o levantamento de quantias depositadas judicialmente. De qualquer forma, muito embora hoje os pagamentos estejam em sua maioria suspensos ou mesmo realizados em quantias diminutas, o que suspende/mitiga a eficácia de uma penhora, necessário uma atuação forte e incisiva do Departamento Jurídico no sentido de buscar-se a imediata suspensão das penhoras, para que possa ter valores imediatamente liberados pelas fontes pagadoras, tão logo retomem o fluxo de pagamento. Surge aqui, inclusive, a possibilidade de buscar junto ao TJRJ um “ato cível” que já se havia ensaiado outrora ou mesmo uma medida similar que busque preservar o fluxo de caixa do Clube no combate a crise que estar por vir.

Outras medidas internas:

            – Renegociação do contrato com a empresa de viagens

O Vasco paga 20% sobre o valor das despesas, a título de comissão. Sem entrar no mérito que qualquer um consegue pegar o telefone e fazer uma reserva, se for o caso de se destacar uma pessoa ou empresa para exercer esta função, então é preferível contratar um caboclo pra fazer isto, a um baixíssimo custo  com preço fixo. 

Pagar comissão sobre as despesas é temerário, além de desprovido de fundamentação razoável. A justificativa é a de que com a empresa adianta as despesas, e o clube demora a pagar dois, três meses, a comissão se faz necessária. Se for assim, é preferível ir ao banco e pegar um empréstimo. Além disto, ainda há uma clara desconfiança se a empresa procurará os serviços mais baratos.

Portanto, pelo menos a renegociação deve ser feita, com a fixação de um valor pelos serviços prestados (obviamente com um preço condizente com o serviço efetivamente prestado) ou pelo menos a redução do percentual pago a título de comissão.

-Renegociação de contratos com atletas do futebol. O clube precisa repactuar os contratos com seus atletas estabelecendo teto rígido para vencimentos por ao menos 3 anos.

4. Busca de geração de receita “alternativa” – ferramentas para maior ativação da marca:

Evidentemente que um dos maiores desafios é a busca de recomposição mínima das receitas, drasticamente afetadas pela pandemia por razões óbvias. Neste cenário, o maior aliado do clube, uma vez mais, é sua torcida. Desta forma, seus canais oficiais surgem como instrumento importante na geração de conteúdo que possa atrair maior ativação da marca e engajamento do sócio e/ou torcedor. Há em andamento um protocolo elaborado pela FFERJ para retomada dos treinamentos, o que por si só gera a produção de conteúdo, fator que pode ser explorado tanto na questão do contrato com a TV como na ativação dos canais oficiais do clube para maior ativação da marca e até mesmo produtos exclusivos. A Vasco-TV, que tem produzidos bons conteúdos, pode ter papel fundamental na produção de matérias exclusivas, como até mesmo as famosas “lives” com artistas vascaínos, o que até poderia atrair patrocínios na exibição como se tem visto por aí.  

Outro ponto importante é a reformulação do programa de sócio torcedor e do sócio estatutário. Além de buscar garantir a manutenção do patamar atingido no fim do ano pretérito, com a previsão de preços compatíveis com a crise e acessibilidade a descontos/produtos que compensem pela perda de assistir a jogos, é necessário gerar atrativo para que, os que tenham condições, antecipem o pagamento de suas mensalidades/semestralidades/anualidades, gerando capital de giro para pagamento de pessoal. Neste quesito é importante a renegociação de contrato com a FENG/Golden Goal acerca da cessão desta receita e os valores envolvidos à título de remuneração pela administração, sendo recomendável, se possível, a retomada de tal administração pelo Clube como diminuição de custos.

–  O estacionamento passa a ser pago nas dependências do clube em dias de jogos.

– Criação de novos espaços publicitários no estádio. Como, a princípio, os jogos poderão ser disputados sem torcida, o uso inclusive das sociais para a venda de publicidade a ser exibida na TV pode ser fonte de receita.

5.Redução imediata de custos:

Não é segredo para ninguém que a atual gestão do Vasco da Gama optou por um modelo de extrema terceirização, chamando a atenção alguns contratos de valores expressivos em serviços que podem ser muito bem executados internamente. Neste cenário não soa razoável falar-se em corte de empregados (como se ouviu e leu por aí). O momento é de preservação de empregos, especialmente dos mais necessitados. Daí porque, ao falar-se em corte de custos, a solução passa pelo corte/mitigação da terceirização com redirecionamento interno dentro do Clube, tanto para funcionários como – e especialmente – para diretores estatutários. Alguns exemplos que podem ser identificados de pronto são os departamentos Jurídico e Financeiro. No primeiro caso, onde não há previsão de custo para consultoria jurídico-tributária, embora se saiba existir um escritório assessorando, temos uma previsão de R$ 760.000,00/ano com PJ’s, além de outros R$ 792.000,00/ano com consultoria cível. Só aí são quase R$ 130.000,00 por mês por serviços que podem ser executados internamente por diretores ou advogados internos do Clube. Já no financeiro, em que temos um custo de R$ 692.400,00/ano com PJ’s, vemos a previsão de R$ 1.512.000,00 em consultorias e outros R$ 964.595,43 lançados sob a rubrica de “despesas financeiras”. Ora, se antes um clube com as dificuldades financeiras do Vasco já não podia se dar ao luxo de gastar tanto em consultoria, o que dizer agora neste cenário ainda mais alarmante? Vale dizer que, assim como no jurídico em que vemos terceirizações em trabalhos que poderiam ser muito bem exercidos por diretores do Clube, como outrora, não se justifica no financeiro o pagamento de consultorias para negociação de dívidas ou mesmo licenciamento de marcas, especialmente neste cenário. Outra questão que chama atenção na peça orçamentária, e que evidentemente deverá ser readequada, é a previsão de R$ 711.341,95 para consultoria de arquitetura e engenharia. Muito provavelmente esse custo se referia a questão da reforma do Estádio que, em não sendo iniciada, não parece haver razões para a sua execução neste ano.

– Suspensão total concessão de ingressos de cortesia.

– Suspensão total de convites para viagens.

– Suspensão da cessão de material esportivo do clube – distribuição de camisas e demais itens.

– Suspensão temporária de participação em disputas dos esportes amadores/olímpicos.

–  Redução da folha do financeiro

O Vasco previu no orçamento o valor de 4.500.000,00 para o pagamento de profissionais (dentre folha de pagamento, auditoria, consultoria e pessoas jurídicas). De início, todos os contratos com as auditorias devem ser renegociados. Não faz sentido, por exemplo, o Vasco pagar a KPMG para renegociar dívidas se existe um departamento jurídico que também pode exercer a mesma função. 

– Redução da folha do jurídico

O Vasco terceiriza praticamente todas as ações judiciais. Portanto, não há a necessidade de remunerar os escritórios contratados e manter três, quatro profissionais na folha de pagamento. É preciso renegociar os contratos com os escritórios e enxugar a folha. Em caso de extrema necessidade, que é o caso, deveria ficar apenas o VP, para controlar os serviços dos contratados.

– Não contratação de quatro diretores executivos + CEO 

O Vasco pretendia gastar R$ 3.000.000,00 ao ano com a contratação de tais profissionais. Inúmeras são as hipóteses de aplicação deste dinheiro.

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Esperamos mobilizar dirigentes do clube, Presidentes de Poder, conselheiros, sócios, torcedores e candidatos a dirigir o Vasco no próximo triênio. Contribuam com ideias, critiquem as expostas acima, mas mobilizem. Observar passivamente o que está havendo fará com que o poço seja menos profundo. Por outro lado, responder à crise com liderança e perspectiva vitoriosa pode significar a mola que reduzirá o impacto e, ainda, fará com que se retome a trajetória de glórias.

Grupo Fuzarca

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