Tirania do Bem

“Toda tirania deve ser afastada, inclusive a tirania da maioria, que elege o Executivo e o Congresso.” (Estado de São Paulo – checado pela Agência de Verdades Absolutas Nóbrega News).

A ideia acima partiu da cabeça de um dos representantes prementes do mussolinato de toga em uma live ocorrida no dia 10 de agosto de 2020. Ela é expressa por quem nunca teve sequer um voto na vida, apenas as bênçãos do apadrinhamento. Deve ser a tirania do bem.

Seguindo essa premissa, que é vigente no poder judiciário brasileiro, uma juíza proferiu decisão relativa ao Vasco da Gama que transforma qualquer Assembleia Geral em algo com este encaminhamento totalitário. Provocada pelos de sempre, que governam o clube nos últimos 9 dos 12 anos por força do que obtiveram em tribunais, a magistrada resolveu conceder poder absolutista ao delegado da vez. Afinal, “a tirania da maioria deve ser afastada”. Prevaleça a tal tirania do bem.

Daqui por diante, então, qualquer lista de aptos a votar no clube não passará mais por comissão alguma. Será simplesmente arbitrada por quem a concebe e fabrica. Controle, avaliação, checagem? Não se pode esperar que um Poder que decide monocraticamente e com pouquíssimo estudo a respeito da matéria que avalia perca tempo proferindo decisões tendo estes cuidados no horizonte.

Cá do meu canto, acho a panaceia divertidíssima. Muito se falou sobre processo eleitoral no Vasco e seus desmandos. Não à toa os faladores estão no poder em ¾ dos últimos 12 anos. Sempre se atribuiu tais desmandos ao absolutismo de quem esteve à frente do clube no ¼ restante deste tempo. Porém, não se tem notícia de que tenha formulado, em tempo algum, uma lista com as próprias mãos e, por força da justiça, checada por ninguém.

Conclui-se que as cabras berradeiras das duas últimas décadas vão parir a maior aberração da história eleitoral do clube. Quis o destino que o parto fosse logo de gêmeos: uma AG para reforma do estatuto que pode não ser reforma do estatuto, pois os apelantes judiciais e seus asseclas decidiram renegar aquilo que apoiaram por 3 anos, e uma AG para eleger um novo governo que será parcialmente eleito pelo obscurantismo forjado sob uma anistia torta às mãos dos honestos de fotografia. Que belo desfecho para a turma do discurso democrático, transparente e arejado. Promoverão a avaliação eleitoral que mais federá a corrupção da História do clube, com U, de Urna 8.

Depois, quando isso acabar, eles se elegem de novo. Por um motivo qualquer, antes do meio do mandato, já estarão às turras, em choramingos pelos cantos e por trás das pilastras da sede da Lagoa. Terão abandonado a administração que elegeram, passarão à oposição, para que, sustentados por novo discurso vitimista em 2023, enganem a choldra. Qualquer problema, vão ao tribunal administrar inconvenientes. Afinal, é sempre bom seguir os preceitos da corte que manda no país: a tirania da maioria que elege o executivo e o legislativo deve ser afastada. O Vasco dessa gente curte a onda da Tirania do Bem.

João Carlos Nóbrega

One thought on “Tirania do Bem

  • 12 de August de 2020 at 12:59
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    Meus aplausos para o João , precisão cirúrgica.

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