“ESG”: O Vasco está atrasado – mas há quem esteja mais

Toda vez em que se vê atrasado, o mundo emebiei dos adminstradeiros e marquetadores importa um nome ou uma sigla, normalmente em inglês, para poder seguir faturando com a palestragem cafona repleta de conceitos para lá de surrados, porém só nominados depois que eles os descobrem.

No Brasil, foi mais ou menos assim que surgiu com força o sucesso do complience – depois que a maior empreiteira do país divulgou que atuava com uma espécie de negativo disso – um departamento inteirinho de propinas e desvios.

2020 vai embora deixando como legado algumas lições caretas penduradas em um patrulhamento moral que elevou à décima potência um conceito recém-difundido de boa prática administrativa conhecido por ESG. Não se surpreendam: novamente, a sigla vem do inglês – Environmental, Social and Governance, para quem preferir, a governança com foco sustentável e social. Mais uma vez, o assunto é discutido em meios sérios há mais de 20 anos. Mais uma vez, os neo-revolucionários de laives de pombal acham que estão descobrindo a pólvora.

Por esses dias, a respeito do tema, tomei um susto com a manchete informando que a “nova administração” do Vasco, aquela que talvez vá para 12 dos últimos 15 anos à frente do clube, pretende lançar apoio à causa LGBT (faltam-me as outras letras). Surfe em modismo.

Tenho visto em mídias sociais o clube se manifestar imediatamente e, invariavelmente, sem o benefício da dúvida, em casos de suposto racismo, como em apoio ao atleta Gerson, fato que segue sem confirmação. Manifesta-se apoio incondicional, registra-se uma mãozinha fechada e cola-se a frase de panfleto “vidas negras importam”.

Os marquetistas e modeiros que me desculpem, mas eles precisam aprender que, ao menos neste tema, o Vasco já deu de mão fechada há 97 anos. Há registro documental, ninguém precisa ficar repetindo. A mãozinha fechada, para o Vasco, tem 97 anos. Esse negócio de panfletinho, faixa entrando com o time, camisa estilizada e mascote homenageando um atleta negro mais de 50 anos depois de ele atuar pelo clube é coisa para quem está um século atrasado. Neste tema, o Vasco deveria também ser locomotiva – mas, tristemente, tem se postado como vagão.

Então, vou deixar um presente de fim de ano dando um exemplo do que seria a tal ESG aplicada a um clube com marca centenária de tradição anti-discriminatória. Aproveitem porque para o Vasco é de graça. Para os outros tem a taxa “preconceito histórico”.

Suponha-se que o clube possui um projeto de reforma do seu estádio, com ampliação. E deseja aplicar a boa prática ESG.

Ambientalmente, dentre muitas outras ideias aplicáveis ou não, o clube quer recuperar águas de chuva, utilizar, mesmo que parcialmente, energia solar, reaproveitar águas cinzas de esgotamento para irrigação do campo, saber aproveitar a refrigeração natural do estádio (o que poderia custar o fechamento da ferradura) após estudos meteorológicos com a devida sazonalidade, escolher as cores predominantes de suas cadeiras e arquibancadas para evitar o armazenamento de calor e até manter a agradável vista para o Cristo Redentor.

Ao contrário do que se supõe por “banalidades”, o clube pode gerar receitas com isso de curto, médio e longo prazos, destinando lixo corretamente, gerando a própria energia, sendo energeticamente eficiente e até despertando o interesse de apoio e patrocínio de fundos e corporações superficialmente engajados que podem ver numa instituição com 97 anos de repúdio ao preconceito uma forma de se enturmar bem no meio. Então, resolve-se bem o E.

Mas não se quer resolver o E sem que o S seja contemplado. Frente a este projeto preliminar, chama-se quem tem interesse no seu empreendimento para conversar. A comunidade do entorno, a fim de que haja diálogo sobre as agruras da fase de obras (trânsito de veículos pesados, poeira, barulho) e da fase de operação do estádio (trânsito de automóveis, aglomerações na rua, fechamento de espaços, etc.). Por exemplo, seria bom ou ruim o novo estádio ter um espaço de convivência interno pré-jogo? Ou a comunidade, que tem seus pequenos comércios muito movimentados nos dias de eventos, seria prejudicada?

Do S também participam os profissionais. Os atletas preferem grama artificial? Os bancos de reservas precisam ficar melhor posicionados? E os vestiários? A imprensa precisa de quê para uma transmissão e cobertura tranquila?

Daí, se pode partir para entrevistas com grupos específicos. Um espaço tipo vagão do metrô só para mulheres faria bem? Se sim, o que ele precisa ter? Necessidades especiais, não só cadeirantes. Como seria um estádio, ou parte dele, para especiais? Pessoal das opções sexuais diversas, ter um banheiro específico é só panfleto ou faz com que a pessoa se sinta respeitada realmente?

Não faltam temas para abordar e se discutir o S de um projeto. Mas se é para discuti-lo, que seja de forma ampla. E que seja o quanto difícil parece – porque é.

Só então, diante não só do E e do S, mas de todos os outros conceitos imagináveis, como funcionalidade de projeto, negociação com o poder público e, lógico, retorno financeiro, se toca o G. A governança ocorre com base naquilo que foi projetado sustentavelmente e socialmente, sem barras forçadas, sem mergulhos em hipocrisias rasteiras do politicamente correto, e, sim, com o verdadeiro desejo de que a política sincera que se adota pode até trazer retorno. Até. Para o estádio do clube, para quem o frequenta com todas as suas diversidades, para a comunidade, para os profissionais que nele atuam e para que as pessoas sejam educadas ambientalmente com o prazer de ver aquilo que amam – o Vasco – estar sob uma diretriz que respeita.

O exemplo dado acima serve a uma premissa conceitual sem chorumelas e malabarismos de marquetagem proveniente de emebieis pueris. Serve para qualquer ação mínima em que se imagina aplicar a tal ESG que, mais uma vez, é conversada há mais de 20 anos. Não há mágica de engajamento de rede social e marquetagem fuleira que substitua culhões. Quer se engajar? Faça direito, do tamanho dos 97 anos do Vasco neste engajamento.

Feliz 2021

João Carlos Nóbrega

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