Photoshop e Base

O Vasco comemorou ontem 20 anos do seu último título brasileiro. Para tal, mídias oficiais e extra-oficiais (a imprensa convencional que banca ou é bancada pelo sistema) fizeram questão de deletar no photoshop ou no recorte com tesoura um de seus responsáveis. Novidade não existe: já haviam feito isso ao lembrar da virada histórica da Mercosul, da Libertadores de 98 ou mesmo do reconhecimento do título Sulamericano de 48. É mais do mesmo e trata-se da primeira experiência de tentativa de cancelamento da História do clube. Se ninguém protestar, outras virão. Quem sabe não mudam o nome do navegador quando algum intelectualóide decidir que o Almirante serviu a algo que resolveu identificar com fascismo.

Antes de sair no The Globe de hoje reportagem sobre divisões de base do Vasco, que eu não li, não vou ler e já sei que não é honesta, tinha combinado com o Fellipe Sciamarella de falar um pouco sobre o que vi no clube a respeito do tema ao longo dos 20 anos em que me aproximei da política. Aí está.

A passagem dos 20 anos do título Brasileiro de 2000 conquistado em 2001 tem muito a ver com o assunto. E por isso serviu como mote. É que, imediatamente após a conquista, por motivos inconfessáveis, mas nítidos, as Organizações Globo promoveram um boicote contra o Vasco que inibiu suas fontes de receita (até por isso, reportagens dali não podem ser honestas sobre o Vasco). Acreditava a madrinha do sistema espúrio que, assim, levaria o clube em poucos meses a fechar as portas.

Foi então que o deletado das fotografias de sucesso foi à luta. Eurico tinha um defeito invejável: a arrogância que impede que alguém, ou, no caso, uma Instituição centenária, se ajoelhe diante da covardia do mecanismo viciado. Ou seria excesso de dignidade? Vai saber.

Sem dinheiro pelo bloqueio imposto pela farsa global, voltou-se para a única saída possível: base na veia. Impedido pelo mesmo sistema de criar um centro de desenvolvimento a 10 minutos do clube na Washington Luiz, não por acaso ao lado do parque gráfico da manipulação, não se fez de rogado: construiu um colégio em São Januário que atendeu aos jovens que lá moravam em instalações reformadas, treinavam, tinham todas as suas refeições, conviviam socialmente. O pouco que havia para investir, foi investido ali, naquele projeto desprezado pela inveja, mas que seria a mola propulsora de recondução do Vasco ao patamar devido, assim como (e principalmente) não permitiria a dobra humilhante da lombar.

Em 2008, após a primeira intervenção do poder totalitário no Vasco, seus representantes chegaram ao clube com a ideia de destruir tudo o que existia: liquidaram o hotel-concentração; sucatearam as instalações de estadia da base; destruíram o colégio, que chegou a ser rifado na inadimplência contumaz da gestão República das Bananeiras I. O exemplo que ofereceu educação e esporte a atletas como Coutinho, Alex Teixeira, Souza, Kardec, dentre tantos outros, estava indo pelo ralo.

Dinamites, Peraltas e asseclas como Salgado (hoje apadrinhado pela Globo), pouco depois, enfiaram a base do Vasco em Itaguaí. Muitos foram os relatos ao longo daquele tempo do ônibus quebrado, ou sem combustível, na Avenida Brasil. Um garoto de 13 anos morreu, sem socorro, durante um treinamento. As instalações eram precárias. O clube deixou de cumprir a sua real função social e abriu mão da dignidade que poderia fazer com que retomasse seu rumo.

Já doente em 2015, o excluído das fotos retomou um clube infestado de lixo e ratos. Ao limpá-lo, precisou reconstruir instalações para a base, voltar a oferecer nas refeições algo além de salsicha e reativar o projeto do colégio, que estava abandonado e seguia existindo só para constar. Mais uma vez, percebendo o clube em via falimentar, enxergou a base como solução.

Naqueles três anos, o Vasco criou toda a sistematização de treinamentos, alimentação, acompanhamento técnico, psicológico e nutricional em documento específico publicado à época. Se os sensores da internet não excluíram, há como encontrá-lo pesquisando.

Eurico deixou o Vasco em 2018. Nos 3 anos do excluído da foto, a sangria estancou, mas não houve tempo para mais nada. Infelizmente, pouco mudou na situação pré-falimentar. Estamos indo para 12 em 15 anos da mesmíssima conversa: gênios assumiriam, uns são exatamente os mesmos de 2008, outros são seus pupilos. A promessa de modernidade, competência, transparência e credibilidade, em tese sancionada por MBAs que sequer existem ou que não significam nada, não mudou a realidade financeira. A dívida, entre o lápis na orelha e os acadêmicos de porta de mestrado e burocratas com horas vagas no serviço público, triplicou.

Agora, dizem que encontraram o gênio da lâmpada. No entanto, note-se que se não tivesse o Vasco conquistado a Copa do Brasil de 2020 da categoria sub 20, nenhum deles estaria falando em investimento honesto na molecada. O The Globe padrinho do Salgado não escreveria uma linha. Todos seguiriam fingindo que não viram a única ação produtiva realizada no Vasco no século XXI.

Daqui do meu banquinho sigo dizendo o que aprendi ao longo da jornada: só a base salva o Vasco. E este discurso não foi, é ou ficará retrógrado. Pelo contrário, ele será a cada hora mais evidente. Ocorre que aqueles que deletam personagens marcantes de fotos querem estar na próxima foto. E, apostem aí, não há nada mais nocivo para estratégias verdadeiramente institucionais não represadas por vaidade escrota. Eles querem resultado amanhã. E o capeta sabe que este é o caminho mais rápido para o insucesso.

João Carlos Nóbrega

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