Como (tentar) sepultar o passado

Para aqueles que conhecem o Vasco a uma distância suficiente que permita a abstenção do ambiente tóxico político do clube, uma informação: a inveja é um dos poluentes exclusivos de São Januário. Se em outros clubes vaidade, prepotência e arrogância são comuns como lá, a inveja é uma das particularidades vascaínas. 

Inicio com o parágrafo anterior para explicar o escândalo visual de conquistas do clube tratadas como bugigangas pela atual diretoria. No final de semana passado, pedi a um anunciante que recolhe ferro velho para carregar um ar condicionado em desuso. A Kombi do moço tinha mais respeito pelos descartes alheios do que Salgado e sua trupe tiveram com as conquistas do Vasco.

A imprensa parceira correu para dizer que “nenhum bem havia sido danificado”. Os professores de gestão que habitam a Colina (por enquanto), por sua vez, alegaram um “erro operacional” que merece a “revisão do protocolo”. Como se protocolo houvesse para uma operação desastrosa. Como se o que está em jogo fossem protocolos de butique adquiridos em faculdades da rua da Alfândega, não o passado do Vasco.

Lembro, ainda, que em menos de meio ano de gestão, já divulgaram emblemas “minimalistas”, já transformaram cachorros em sócios e ainda querem, na onda da inutilidade marqueteira infanto-juvenil, criar camisas multicor, como se o clube precisasse disso para defender uma História de repúdio ao preconceito de 100 anos. Fetiche de respeito não nos faz mais respeitados. 

Deixo no ar uma pergunta para que os senhores respondam: se o cidadão que fotografou e filmou a galinhagem perpetrada não estivesse lá, como os senhores do “protocolo operacional” fariam? Ajudo na resposta: provavelmente, dando de ombros. 

Então, retomo à origem deste texto. O Vasco pós 2008 sente inveja dele mesmo. Sente inveja do que nunca conquistou. Sente inveja do que nunca foi. Sente inveja da vascainidade de quem entregou ao clube bem mais do que aquilo tratado como amontoado pela turma atual. 

Entre o Salgado que enterrou a seleção de 90 e aquele que sapateia sobre os troféus do clube só existem tipos derivados das entranhas de Sérgio Cabral Filho. Nada mais. Infelizmente.

Assim, é muito provável concluir que, bem antes da inveja, veio o fracasso retumbante. Essa gente fracassou no Vasco. Alguns por incompetência, outros por descaso, outros por índole e a maioria por tudo numa coisa só. 

Ocorre que, ao fracassar, estamparam em suas testas a inveja. Ao invejar, atropelaram o passado, expuseram as veias do preconceito no presente e planejam para o futuro o brilho com patas e penas associativas e camisas multicor. Um Vasco de tamanho medíocre, tacanho. Um Vasco que fede a inveja enquanto começa a degenerar suas próprias conquistas, seus símbolos, sua origem.

João Carlos Nóbrega 

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