Simbiose Simbólica

Todos puderam acompanhar, ao vivo e em cores, a última reunião do Conselho Deliberativo do Vasco. Aquela que oficialmente não terminou e pretende terminar um dia com a votação da proposta orçamentária para 2022. Quer dizer, ela não terminou oficialmente, mas teve o desfecho patético liderado pelo presidente de Assembleia Geral, paspalhice que se pretende esquecer.

Como o show foi transmitido e ainda pode ser resgatado em alguma plataforma virtual com facilidade, não faltarão testemunhas para endossar o que foi dito com clareza pelo Vice-Presidente de planilhas e slides. Aliás, fala mágica que qualquer um pode garantir com a mais absoluta certeza: o Vasco precisa aumentar suas receitas.

Na proposta orçamentária elaborada pela digníssima comissão integrada inclusive pelo CEO da Gávea, uma das soluções para o vislumbre de novas receitas em 2022, diga-se de passagem, uma espetacular novidade, é a negociação de atletas formados no clube. Chegou-se a citar exemplos recentes como Douglas Luiz, Paulinho e Talles Magno. Acreditam os gestores das galáxias que negociar atletas tem permitido ao clube a própria sobrevida. O que parece absoluta verdade, basta que se verifique aquilo que chamam de sucesso financeiro em 2021, obtido somente por conta das negociações de Talles, Nathan e Arthur. Tudo bem, o sucesso financeiro é um exagero de retórica, visto que se chega em 2022 devendo uma enxurrada de salários referentes a 2021, mas não interrompamos o delírio de auto-marquetagem do setor de finanças, ao menos por enquanto.

Feita esta introdução que apenas relembra fatos constatáveis por quem assim desejar, informe-se ao respeitável público que o papo acima não valeu. Zero. Passem a borracha. Esqueçam tim-tim por tim-tim.

Ocorre que no primeiríssimo dia útil do ano, na primeiríssima hora, no primeiríssimo minuto, foram confirmadas as saídas de atletas com 19, 20, 21 anos sem que tais saídas representem qualquer “nova receita” para o Vasco. Note-se que, dentre estes jogadores, alguns têm passagens em seleções brasileiras de base. Poderia se argumentar que, bem, eles chegaram ao profissional e não renderam. Mas nem esta desculpa em farrapos parece coerente, na medida em que não é razoável, inteligente e responsável investir por 10 anos em atletas e concluir em 3 ou 4 jogos que eles são dispensáveis.

Descartadas, então, a burrice e a irresponsabilidade, resta o desleixo. Assim, a teoria mais provável para a saída dos atletas recém-formados não é a dispensa, mas a perda. João Pedro, Caio Lopes, dentre outros, não foram dispensados, foram perdidos porque o departamento de futebol na gema e a diretoria administrativa no ovo não existem. Sequer sabiam que há seis meses deveriam ter apresentado proposta de renovação de contrato. Sequer tinham conhecimento que durante este período todos poderiam realizar pré-contratos com outros clubes. Sequer imaginavam que no dia 3 de janeiro de 2022 estes jogadores estariam perdidos como vento que escorre entre as mãos.

Desta forma, presume-se que para aprovar a sua brilhante proposta orçamentária referente a 2022, a competente gestão deverá passar por um exercício de confissão. Ela pode confessar a burrice e garantir que dispensou os atletas por conta própria, conforme ensaiou o Brazil com Z; ou pode confessar o descaso esparramado sobre a mesa. Alternativa não há, uma vez que a própria peça de orçamento combinada com os slides e a garganta informam que a fórmula “formação de base + negociação de atletas = receitas extras para 2022”.

Porém, qualquer que seja a alternativa escolhida, a burrice ou o desleixo, não se poderá fugir da conclusão óbvia: o Vasco foi lesado e por conta disso está caracterizada a má gestão, algo bastante similar no serviço público à prevaricação.  

Pode ser que atletas campeões sub-20 de estadual, Copa do Brasil, Supercopa do Brasil cheguem ao profissional e não entreguem nada do que prometeram. Muitas vezes acontece. Por outro lado, também pode ser que as circunstâncias em que chegam, dirigidos pelo nada absoluto, os mantenham sem chances de demonstrar ao que vieram. O panorama atual do Vasco fora das quatro linhas permite especular que não apenas estes, mas outros jogadores serão descartados. Junto a eles, os assombrosos investimentos individuais e coletivos durante uma década. Junto a eles, possíveis recursos provenientes de mecanismos de solidariedade em transferências futuras. Um desastre irreparável.

No entanto, como a nossa profunda mediocridade atual exige, fiquemos restritos ao mundo de slides, planilhas, bravatas e paspalhices. Diante deste flanco exposto, seria até melhor não aprovar o Orçamento de 2022. Estatutariamente, repete-se o orçamento do ano anterior, sinaliza-se ao mercado que falácias, falácias, não passarão, abaixemo-nos atrás de um biombo e vida que segue.

Todavia, caso se opte por dar seguimento a este embuste, certamente a reunião será encerrada com algo à altura da peça orçamentária: nada será mais simbiótico do que o documento aprovado e o grito de guerra entoado pela pastelaria de plantão. Incompetentes pelos paspalhos. Paspalhos pelos incompetentes. A simbiose é simbólica. O fracasso é a constatação.

João Carlos Nóbrega

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